Matriz RACI na prática: exemplo completo de um projeto, do arranque à entrega
Um projeto de site institucional, linha a linha: quem executa, quem aprova, quem é consultado e quem só precisa de saber. E os sinais de que a sua equipa precisa de uma RACI antes do próximo projeto.
Toda a explicação de matriz RACI tem o mesmo defeito: define as quatro letras e pára antes do caso concreto. Depois abre uma folha de cálculo vazia, escreve "responsável" numa coluna e descobre que a pergunta difícil nunca foi o que significa o R. É quem vai ser o A de cada linha, e se a resposta do cliente conta ou não.
Este exemplo percorre um projeto inteiro, um site institucional para uma empresa fictícia, com a matriz preenchida e o motivo de cada decisão. Para o conceito, use o guia de matriz RACI; para uma folha de cálculo em branco, o modelo de matriz RACI.
As quatro letras, numa frase cada
- R (Responsável): faz o trabalho. Pode haver mais do que um.
- A (Aprovador, ou quem responde pelo resultado): decide e responde se correr mal. Só um por linha.
- C (Consultado): dá opinião antes da decisão. A comunicação vai nos dois sentidos.
- I (Informado): é avisado depois. A comunicação vai num só sentido.
Quando a mesma pessoa executa e responde, escreve-se A/R na mesma célula.
O cenário
Uma agência vai entregar o novo site institucional de uma distribuidora de material elétrico de Blumenau. A equipa de seis papéis, com nomes inventados para o exemplo:
- GP: Marina, gestora de projeto da agência.
- Designer: Paulo.
- Redator: Camila.
- Dev: Rafael, programador.
- Mkt cliente: Juliana, do marketing da distribuidora e ponto focal do projeto.
- Diretor: o Sr. Antônio, dono da distribuidora e decisor final.
A matriz preenchida
| Atividade | GP | Designer | Redator | Dev | Mkt cliente | Diretor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Briefing e âmbito | A/R | C | C | C | C | I |
| 2. Mapa do site | R | C | C | C | A | I |
| 3. Textos das páginas | C | C | R | I | A | I |
| 4. Layout (design) | C | R | C | C | C | A |
| 5. Desenvolvimento | A | C | I | R | I | I |
| 6. Política de privacidade | C | I | C | C | A/R | I |
| 7. Testes | A | C | C | R | C | I |
| 8. Aprovação final | R | I | I | I | C | A |
| 9. Publicação | A | I | I | R | I | I |
| 10. Formação da equipa do cliente | A | I | I | R | C | I |
Linha a linha: porque cada letra está onde está
1. Briefing e âmbito
A Marina é A/R: conduz a conversa e responde pelo que ficou combinado. Todos os que vão executar são consultados, porque um briefing sem a voz de quem faz gera promessas impossíveis. O diretor é apenas informado, porque a decisão de investimento já foi tomada antes do kickoff. Se o âmbito for fechado com ele de fora, o problema aparece na aprovação final.
2. Mapa do site
A Marina executa o mapa, mas quem aprova é a Juliana. Quem conhece os produtos e o público é o cliente, e se ela não for o A, o mapa passa a ser uma sugestão da agência. A Camila e o Paulo são consultados porque o mapa define quantos textos e quantos layouts vão existir.
3. Textos das páginas
A Camila escreve; a Juliana aprova. Um erro comum é pôr o diretor como A aqui, o que faz cada parágrafo esperar por uma agenda cheia. A decisão sobre os textos vive ao nível de quem conhece o dia a dia da empresa. O programador é apenas informado, para saber quando o conteúdo chega.
4. Layout
O Paulo desenha; o diretor aprova. Aqui a escolha é inversa à dos textos, e é deliberada: a identidade visual é uma decisão de marca, e o dono quer ver. A Juliana e a Marina são consultadas, porque a aprovação do diretor é mais rápida quando as dúvidas dele chegam já filtradas. O Rafael é consultado para avisar o que o layout complica ou encarece na programação.
5. Desenvolvimento
O Rafael executa; a Marina responde, porque o prazo e o âmbito são da agência. O cliente é apenas informado: não aprova código, aprova o resultado nas etapas 7 e 8. Dar ao cliente o A do desenvolvimento é o caminho mais curto para uma alteração de âmbito disfarçada de ajuste.
6. Política de privacidade
Esta linha é da Juliana, A e R, por uma razão prática: o texto jurídico é responsabilidade da empresa, não da agência. A agência é consultada para dizer onde o texto vai aparecer e que formulários recolhem dados, mas não assina o conteúdo. Deixar isto explícito na matriz evita a discussão de última hora sobre quem redige o documento.
7. Testes
O Rafael executa e a Marina responde. A Juliana participa como consultada: é ela quem repara que o botão "Peça um orçamento" está a levar ao formulário errado.
8. Aprovação final
A Marina conduz a apresentação (R); o diretor é o A. A linha existe para mostrar o ponto onde o projeto muda de dono: antes dela, o resultado é da agência; depois, é do cliente. A Juliana é consultada porque o diretor vai perguntar-lhe a opinião.
9. Publicação
O Rafael publica; a Marina responde. Cliente e diretor são informados do dia e da hora. Aqui o I faz diferença, porque ninguém gosta de descobrir que o site mudou ao abrir a página.
10. Formação
O Rafael ensina a equipa do cliente a editar o conteúdo; a Marina responde pela entrega da formação. A Juliana é consultada sobre o horário e o perfil de quem vai aprender.
O modelo traz as quatro letras, a regra de um A por linha e espaço para as pessoas do seu projeto.
Transferir o modelo de matriz RACIQuando o projeto muda a meio do caminho
Uma matriz não se escreve uma vez e fica esquecida. Imagine que, na semana 3, o diretor decide acrescentar uma página de vagas ao site. Surgem logo duas perguntas: quem é o A deste conteúdo novo e quem tem de ser consultado? Se a resposta não está na matriz, a alteração vira uma conversa de corredor e o prazo desliza sem que ninguém decida que devia deslizar.
O hábito que resolve: toda a atividade nova entra na matriz antes de entrar no cronograma. Demora um minuto, e fica registado que a agência e o cliente concordaram sobre quem decide aquilo. Se a alteração mudar o prazo ou o custo, a Marina, como A do desenvolvimento, é quem leva o impacto ao diretor.
Quando a pessoa desaparece
Defina também um substituto para cada A. Se a Juliana sair de férias na semana de aprovar os textos, o projeto não pode parar. A matriz só ganha força quando alguém sabe quem assume. Nos projetos de agência, uma linha extra no rodapé, "substituto do ponto focal", resolve o caso e custa quase nada.
Cinco verificações antes de publicar a sua matriz
- Cada linha tem exatamente um A. Zero A significa que ninguém decide; dois significam que cada um acha que é o outro quem decide.
- Cada linha tem pelo menos um R. Se ninguém executa, é uma decisão sem trabalho.
- Nenhuma pessoa tem C ou A em tudo. Quem aparece em todas as células está a ser usado como gargalo.
- O C não é um "para constar". Consultado é quem tem de responder antes da decisão; se a resposta não muda nada, é I.
- A matriz foi mostrada a quem nela consta. Um papel que a pessoa não conhece não vale.
Sinais de que a sua equipa precisa de uma RACI
- As mesmas dúvidas de "quem aprova isto?" voltam a cada projeto.
- Tarefas ficam paradas à espera de uma decisão que cada um acredita ser do outro.
- O cliente aprova tarde porque o pedido de aprovação foi para a pessoa errada.
- Duas pessoas fazem o mesmo trabalho sem saberem.
- Umas férias deixam o projeto sem ninguém que decida.
Se três destes sinais lhe soam familiares, o próximo kickoff é o momento. Uma matriz de dez linhas dá uma reunião de meia hora e evita semanas de ruído.
Da matriz ao dia a dia
O exemplo acima só funciona se os papéis aparecerem onde o trabalho acontece. Na prática, cada linha passa a ser uma tarefa com um responsável e, quando há aprovação, um aprovador. Na Tasskee, o plano Start já inclui observadores e aprovadores, e o cliente acompanha o andamento pelo portal do cliente sem ocupar um lugar. Se a ação que quer estruturar for menor do que um projeto, o 5W2H com seis exemplos é uma alternativa mais leve. E para o relatório que mantém o cliente informado depois do kickoff, veja o status report semanal.